Parque Nacional da Peneda Gerês

Localização

O Parque Nacional da Peneda-Gerês, área classificada através do Decreto-Lei 187/71 e Biótopo CORINE (C11100018), situa-se no Noroeste da Península Ibérica, mais concretamente no Norte de Portugal nas províncias do Minho e Trás-os-Montes.
É confinado pelos meridianos 8° 25′ W e 7° 53′ W e pelos paralelos 41° 41′ N e 42° 05′ N. O seu limite exterior encontra-se definido no Anexo ao Decreto-Lei nº 181/71, de 8 de Maio.
Ocupa uma área aproximada de 72 000 hectares distribuídos por 5 concelhos: Melgaço, Arcos de Valdevez e Ponte da Barca do distrito de Viana do Castelo, Terras do Bouro do distrito de Braga e Montalegre do distrito de Vila Real.
Os terrenos abrangidos são propriedade do Estado, propriedade privada e comunitária.

Caracterização física

O PNPG caracteriza-se por ser uma zona em que o relevo fortemente acidentado e os pronunciados declives, bem como os inúmeros afloramentos rochosos, são as marcas dominantes. Trata-se de uma região essencialmente granítica, fortemente fracturada, se bem que se verifica também a presença de uma importante mancha de rochas metasedimentares (xistos) e de depósitos de origem glaciar, como moreias ou blocos erráticos.
É uma zona montanhosa, com altitudes que chegam até aos 1545 m, em Nevosa (Serra do Gerês), de fortes declives, onde a presença de diferentes níveis de chãs é frequente. A grande quantidade de vales e corgas é aproveitada pelos rios, dando lugar a uma rede hidrográfica de grande densidade, composta por um conjunto de afluentes e subafluentes que correm, de um modo geral, por vales agudos de encostas escarpadas. A área do PNPG faz parte das áreas de influência dos rios Minho, Lima, Cávado e Homem – como os mais importantes – que compartimentam o maciço granítico, individualizando as diferentes serras: a Serra da Peneda, definida pelos rios Minho e Lima; a Serra Amarela, definida pelos rios Lima e Homem e a Serra do Gerês, definida pelos rios Homem e Cávado. A temperatura média anual é de 13ºC devido à influência oceânica, com amplitudes térmicas elevadas. As temperaturas mais elevadas dão-se no trimestre Julho/Setembro, enquanto quer as mais baixas correspondem ao trimestre Dezembro/Fevereiro. O período de risco de geadas é elevado durante praticamente todo o ano. Todas as variáveis caracterizadoras do clima da região sofrem modificações com a alteração da altitude e da zona: à medida que penetramos para o interior produz-se uma continentalização do clima, com uma diminuição das precipitações e um aumento das amplitudes térmicas diárias; por sua vez, ao aumentar a altitude produz-se um aumento das precipitações e uma diminuição das temperaturas.
A localização deste território (entre o oceano Atlântico e os ambientes climáticos do interior da Península) e a configuração do relevo condicionam, assim, as características climáticas da região e determinam o tipo de clima existente, o que por sua vez condiciona tanto o manto vegetal e as características dos solos como a maneira de estar e o modo de habitar das gentes.

Património Natural Flora

O coberto vegetal das Serras do Gerês, Amarela, Peneda e Soajo e dos planaltos da Mourela e Castro Laboreiro é dominado por quatro unidades distintas: carvalhais, formações arbustivas (matos), lameiros e vegetação ripícola. Os carvalhais, com grande expressão na área, ocupam parte dos vales dos rios Ramiscal, Peneda, Gerês e Beredo.
A descrição destes carvalhais que albergam inúmeras riquezas do património florístico esteve na base do estabelecimento de uma Aliança, por Braun-Blanquet, Pinto da Silva & Rozeira (1956), a Quercion occidentale, dominada por carvalho-negral (Quercus pyrenaica Willd) e por carvalho alvarinho (Quercus robur L.). Esta Aliança engloba, na área do PNPG, duas associações definidas pelos mesmos autores: a Rusceto-Quercetum roboris, que ocorre em altitudes mais baixas e em vertentes mais expostas à insolação, e a Myrtilleto-Quercetum roboris, de características mais atlânticas.
Pela abundância destaca-se na primeira das associações citadas o carvalho-alvarinho, o sobreiro (Quercus suber L.), a gilbardeira (Ruscus aculeatus L), o padreiro (Acer pseudoplatanus L.) e o azereiro (Prunus lusitanica L.), enquanto que na Myrtilleto-Quercetum roboris dominam o carvalho-alvarinho e o carvalho-negralacompanhados pelo arando (Vaccinum myrtillus L.), o medronheiro (Arbutus unedo L.) e o azevinho (Ilex aquifolium L.).
Em altitudes superiores verifica-se a presença de manchas florestais dominadas por carvalho-negral atribuíveis, possivelmente, a Holco-Quercetum pyrenaica Br.-Bl., Pinto da Silva e Rozeira (1956), integrável, de acordo com Rivas-Martínez, na Aliança Quercion robori-petraea Tx. 1937.
Os carvalhais são objecto de utilização pelas populações locais que, pela intensidade de actuação ao longo dos anos induzem nas formações arbóreas um elevado estado de degradação reduzindo-as a matos cuja composição depende sobretudo das condições edafoclimáticas.
Os matos dominantes na zona do Parque Nacional da Peneda-Gerês são os tojais (caracterizado pela presença de Ulex minor e Ulex europaeus), os urzais (dominados por Erica umbellata e Calluna vulgaris), os matos de altitude (com a presença de zimbro-rasteiro Juniperus comunnis ssp. alpina e Erica australis ssp. aragonensis) e os matos higrófilos compostos por Erica tetralix, U. minor, E. ciliaris, Drosera rotundifolia, Pinguicula lusitanica, Viola palustris ssp. juressi e Molinia caerulea, entre outras.
A vegetação ribeirinha merece destaque não só pela componente florística mas igualmente pelo importante papel que desempenha na estabilização das margens dos cursos de água onde a elevada velocidade da água está associada o forte poder erosivo.
Ocorrem nos cursos de água do Parque Nacional da Peneda Gerês várias plantas consideradas como merecedoras de especial protecção: Woodwardia radicans, Salix repens, Betula pubescens, Spiraea hypericifolia ssp. abovata, Circaea lusitanica, Angelica laevis.
Os lameiros ou prados de lima são prados semi-naturais cuja vegetação se insere na Classe Molinio-Arrhenatherea Tx. 1937. Apresentam composição variável consoante o teor de humidade no solo.
Das 627 espécies referidas para a área em Serra & Carvalho (1989) destacam-se, exclusivamente aquelas que “pelas suas características e pelo seu estatuto carecem de medidas de protecção imediata “Lista de Espécies a proteger”.
Pela contínua procura verificada na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês optou-se por inserir nesta lista as espécies actualmente alvo de maior pressão pelo seu interesse medicinal: o androsemo (Hypericum androsaemum), a betónica-bastarda (Melittis melissophyllum) e a uva-do-monte (Vaccinium myrtillus).

Caracterização administrativa

De acordo com o critério das Nomenclaturas de Unidades Territoriais, o PNPG encontra-se inserido na NUT II do Norte de Portugal, abrangendo parte das NUT’s III do Cávado, Minho-Lima e Alto Trás-os-Montes, das quais fazem parte, respectivamente, os distritos de Braga (concelho de Terras de Bouro), Viana do Castelo (concelhos de Melgaço, Arcos de Valdevez e Ponte da Barca) e Vila Real (concelho de Montalegre).

Actividades sócio-económicas

As comunidades humanas do PNPG assemelham-se pelas características próprias de regiões de montanha que partilham e distinguem-se pelas especificidades culturais que a história, o isolamento e os diferentes recursos locais lhes conferiram.
A agro-pecuária é a actividade dominante em quase todo o território do PNPG. Uma agricultura de minifúndio assente em culturas cerealíferas (milho e centeio) e na produção da batata, do feijão e de diversos produtos hortícolas, complementa-se com a pastorícia, actividade que constituiu, durante muito tempo, o principal alicerce destas economias de montanha. Embora o seu peso tenha vindo a diminuir, as raças autóctones como a barrosã e a cachena noa bovinos, a cabra bravia nos caprinos e a bordaleira nos ovinos, são ainda uma importante fonte de rendimento.
A actividade silvícola aparece em estreita ligação com a pastorícia e com a agricultura. É aos baldios – terras incultas, possuídas em comum e geridas pelas comunidades locais – que a população vai buscar um conjunto de bens essenciais ao processo produtivo e à vida quotidiana: a lenha, a madeira e o mato para a cama dos animais, depois utilizado como fertilizante. É também da exploração florestal dos baldios, na sua maioria sob gestão conjunta do PNPG e das populações, que resulta uma receita importante para as Juntas de Freguesia ou Assembleias de Compartes, depois reinvestida na comunidade.
A apicultura e o artesanato alimentar (o fumeiro, em particular) constituem uma outra componente da actividade agrícola com grande tradição e importância no PNPG. Por sua vez, actividades tradicionais como a tecelagem (linho e lã) e a cestaria (fabrico de cestos e cestas e de vestuário, de que são exemplos as croças e coruchos) têm tido maiores dificuldades em resistir à generalização do uso de produtos industriais e começam a ser poucos os artesãos que preservam o conhecimento das técnicas tradicionais de transformação de produtos naturais em utensílios de uso doméstico e, mais recentemente, decorativo.
Embora a agro-pecuária marque ainda de forma determinante a paisagem e o ritmo destas comunidades, o sector secundário, com a construção civil e as obras públicas, e o terciário, com o comércio, a restauração e a hotelaria, têm vindo a ganhar peso, surgindo como uma alternativa possível para aqueles que não encontram nos animais e na terra o rendimento necessário ao conforto da família. Mas para muitos outros, é ainda a emigração, para os principais centros urbanos, mas também para o estrangeiro.

Património histórico-cultural

O território do Parque Nacional da Peneda Geres foi objecto de uma antiquíssima ocupação humana desde os tempos proto-históricos até aos nossos dias. Facilmente se descortinam ainda vestígios megalíticos, célticos, romanos e, naturalmente, medievais, atestando continua e organizada utilização desse espaço, servindo por vezes e desde tempos imemoriais de referencia geográfica ou limite ás comunidades.
Assim, muito antes de Portugal existir como nação, há pelo menos cinco mil anos, já nesta região viviam muitos povos e as montanhas abrigavam comunidades agro-pastoris, construtoras de grandes monumentos funerários como as antas, túmulos cobertos formando mamoas como as que ainda se podem encontrar nas extensas
necrópoles do planalto de Castro Laboreiro, na portela do Mezio, nas chãs da Serra Amarela ou nos altos frios da Mourela em Montalegre, delimitando espaços sagrados e fronteiras que perduraram por vezes até aos nossos dias. Vestígios da arte dessas gentes remotas tem como melhores exemplos o notável santuário rupestre de Gião ou o Penedo do Encanto da Bouça do Colado em Parada.
Mais tarde, na Idade do Ferro, as comunidades humanas vão-se fixar em povoados fortificados. Pontuando a cumeeira dos outeiros ou os esporões de meia encosta, estes castros do norte de Portugal, serão, até à chegada dos romanos, a mais importante referência na paisagem e na cultura. Nos territórios montanhosos do Parque Nacional, ou nas suas imediações, arqueosítios como a Calcedónia, o Castro de Outeiro ou o Castro de Donões em Montalegre recordam-nos esses tempos recuados.
No ano 173 a.C. as legiões romanas alcançaram pela primeira vez as terras do noroeste da Hispania. Cerca de 138 a.C. o general Décio Junio Bruto, ultrapassando o Douro, atinge o Rio Minho ocupando este território. Seria necessário, entretanto, mais de um século para pacificar os aguerridos e irredutíveis Calaicos, bem defendidos pelas muralhas dos seus castros. A romanização do Conventus Bracaraugustano tem na Geira romana, a via 18 do Itinerário de Antonino, um dos mais relevantes monumentos, quer pela conservação do seu traçado sinuoso quer pelo número e qualidade dos seus miliários epigrafados.
Durante os seguintes e conturbados tempos medievais, a transformação da paisagem e o ordenamento do espaço desenvolveu-se segundo os ritmos e pulsações de uma economia agrária. A ligação à sua terra, um certo desejo de autarcidade, a afinidade com horizontes limitados às linhas do relevo envolvente, explicam em parte a representação fechada e a imagem do território, até nós veiculada pelos documentos medievais que se prefigurava na paróquia/freguesia, unidade religiosa de base territorial, e também em volta do mosteiro como em Santa Maria de Pitões das Júnias e Ermelo ou do castelo como os de Melgaço, Castro Laboreiro, Lindoso, Nóbrega, Covide, e Montalegre.
Testemunhos vivos desses períodos distantes são, também, as brandas e inverneiras, as silhas dos ursos e os fojos de lobos, os arcaicos núcleos rurais e pequenos lugares, dispersos pelas encostas ou encastelados nos montes ou, ainda mais tardios, os espigueiros e as eiras comunitárias, relíquias da introdução da cultura do milho já no sec.XVII.

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